O sistema elétrico brasileiro vive um momento de inflexão. Com a expansão acelerada das fontes renováveis, especialmente solar e eólica, cresce a necessidade de soluções que garantam flexibilidade, segurança e eficiência econômica ao SIN (Sistema Interligado Nacional).
Em entrevista exclusiva ao Portal Weg Norte, Ricardo Simabuku, conselheiro da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), detalha como os sistemas de armazenamento por baterias podem reduzir a volatilidade de preços, mitigar cortes de geração (curtailment) e diminuir o despacho térmico. Simulações da CCEE indicam que, com 7 GWh de capacidade instalada, seria possível reduzir em até 11% os custos associados às termelétricas.
Mais do que uma inovação tecnológica, o armazenamento desponta como peça estratégica para a modernização do mercado e para o avanço regulatório que se desenha no país. Confira a conversa na íntegra:
Portal Weg Norte: Qual a avaliação da CCEE sobre a importância do armazenamento de energia para a evolução do mercado elétrico brasileiro?
Ricardo Simabuku: A CCEE avalia que o armazenamento de energia é um dos vetores centrais para a evolução do setor elétrico brasileiro, especialmente diante da crescente participação das fontes renováveis intermitentes na matriz. O sistema hoje dispõe de energia limpa e abundante, mas enfrenta desafios como dificuldades de flexibilidade operativa, com excesso de geração em determinados horários e falta de potência em outros. O que tem exigido a contratação de usinas termelétricas para garantir confiabilidade ao atendimento, com impacto relevante sobre os custos.
Neste contexto, o armazenamento em baterias se apresenta como solução estruturante ao deslocar energia gerada em períodos de baixa demanda para os horários de pico. Além disso, contribui para mitigar o corte de geração renovável (curtailment), reduzindo perdas aos empreendedores. Trata-se de uma tecnologia capaz de ampliar a eficiência do uso dos recursos energéticos e promover uma transição energética com menor custo estrutural.
Portal Weg Norte: De que forma os sistemas de armazenamento podem impactar o ambiente de comercialização de energia e a formação de preços?
Ricardo Simabuku: Os sistemas de armazenamento têm potencial para reduzir a volatilidade e a amplitude das variações do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) ao longo do dia. A CCEE realizou simulações com sistema de armazenamento de 7 GWh de capacidade e observou que soluções do tipo ajudam a estabilizar os preços.
Na prática, a bateria seria carregada quando os preços estão baixos (elevada geração solar ou eólica) e descarregada nos picos de preço. Esse movimento reduz a diferença de consumo entre os horários de ponta e fora de ponta e diminui o risco de exposição dos agentes. Os estudos indicam ainda: eliminação do corte de geração no dia simulado, aumento da exportação do Nordeste para o Sudeste e redução de 11% no custo de geração térmica.
Portal Weg Norte: Na visão da CCEE, quais são os principais desafios e oportunidades para a inserção do armazenamento no modelo atual do setor elétrico?
Ricardo Simabuku: O principal desafio ainda é o custo de implantação, que limita a viabilidade de investimentos baseados puramente na arbitragem de preços. Há também desafios regulatórios, como a definição do enquadramento do ativo e riscos de dupla tarifação pelo uso da rede.
Entre as principais oportunidades está a contratação de potência por meio do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), mecanismo capaz de viabilizar economicamente os projetos ao assegurar receita fixa. O armazenamento também pode viabilizar novos modelos de negócios, como serviços ancilares, resposta da demanda e produtos estruturados no mercado livre, ampliando a sofisticação do ambiente de comercialização.
Por Christiane Santos para Portal Weg Norte
